BIOINFORME

MICROBIOLOGIA

A contínua evolução no conhecimento das doenças e a tentativa do homem em combatê-las nos levam a reflexões profundas, que começam com fatos pré-históricos, como as evidências de tuberculose em vestígios fósseis, passam pelas placas de argila em que médicos babilônios descrevem os sintomas desta doença e trazem, em 1882, a esperança e a tranqüilidade com a descoberta do seu agente causador, a imunização e a cura. Contudo, ainda no século atual, assistimos atônitos ao ressurgimento da mesma doença e sua resistência a antibióticos antes eficazes.

Se durante muitos séculos as causas das doenças, principalmente as de origem infecciosa, permaneceram obscuras, no século XIX profundos avanços revolucionários no conhecimento de seus mecanismos causais modificaram o comportamento médico em relação a elas. Considerado o pai da patologia, Rudolph Virchow afirmava que a causa da doença deveria ser procurada na célula, pois as alterações macro e microscópicas no organismo durante a doença eram reações das células a ela.

Este princípio abriu caminho para os estudos microscópicos, descartando para sempre a antiga idéia de que as enfermidades eram causadas por humores invisíveis. Nesta mesma época, Jakob Henle, descobridor do tubo renal que leva seu nome, afirmava no trabalho On miasms and contagions (Miasmas e contágios): “A substância presente no contágio não é apenas orgânica, mas também viva, com uma relação parasítica com o corpo.” Foi, então, um dos primeiros a afirmar que não havia diferença entre contágio e miasma.

Mas foi Louis Pasteur quem definitivamente desmantelou a teoria da geração espontânea, provando que os microrganismos causadores de doenças provinham de outros microrganismos. Com seu trabalho e as pesquisas de Robert Kock, descobridor do Mycobacterium tuberculosis, nascia uma nova ciência: a Microbiologia.

Mas estas descobertas não levaram à cura imediata das enfermidades. Sem dúvida, as vacinas foram uma grande arma para o tratamento das doenças infecciosas, da mesma forma que os produtos do arsênio, entre outros. Ao descobrir a penicilina, em 1928, Alexander Fleming estabeleceu um dos grandes marcos no desenvolvimento dos medicamentos modernos. Prosseguindo com esses estudos, Howard Florey e Ernst Chain conseguiram isolar a penicilina em 1940, levando a um grande avanço na produção de antimicrobianos.

Nos tempos modernos, os equipamentos que permitem o processamento automatizado das amostras na rotina laboratorial possibilitaram superar as limitações impostas pelas técnicas manuais, com suas características artesanais e o tempo prolongado de determinadas culturas, auxiliando o médico em decisões diagnósticas mais precoces, precisas e com maiores chances de sucesso terapêutico.

Embora o isolamento e a identificação dos patógenos tenham se mantido um procedimento padrão de grande importância, o diagnóstico molecular de diversas patologias infecciosas significou um avanço ainda maior. Técnicas como a captura híbrida ou a reação em cadeia de polimerase (PCR), que fazem a identificação direta de antígenos e possibilitam a genotipagem em algumas situações, consolidam cada vez mais novas ferramentas de aprimoramento diagnóstico.

Hoje, métodos de detecção primária de anticorpos e antígenos, testes de sensibilidade a drogas, avaliações da imunidade humoral e estudos de determinação genética de resistência à infecção podem associar-se às inúmeras possibilidades de identificação e terapia de focos infecciosos por métodos de diagnóstico por imagem. Tudo isso faz do apoio diagnóstico um aliado fundamental para um dos principais fatores prognósticos das doenças infecciosas: o tempo.

Mas ainda temos muito o que avançar na compreensão e controle dos diversos mecanismos que influem na natureza da doença. Vivemos numa época em que nos surpreendemos com a emergência de novos patógenos, com a multirresistência de microrganismos antes tratados com sucesso pelos antibióticos tradicionais, em conseqüência do uso, muitas vezes indiscriminado, de drogas antimicrobianas. Mas como bem disse Pasteur em seu discurso inaugural da Universidade de Lille: “No campo das observações, os eventos favorecem somente aqueles que estiverem preparados.”