BIOINFORME

LIQUOR

O líquido cefalorraquidiano é um fluido límpido e incolor, com raros elementos figurados e características bioquímicas e imunológicas próprias. Ele ocupa as cavidades ventriculares do sistema nervoso central, os espaços subaracnóides, espinhal, perivasculares, perineurais e o canal central da medula. Desempenha diversas funções: protege contra traumatismos e movimentos bruscos, exerce função imunológica e representa um veículo para excreção e difusão de substâncias.

É produzido em sua maior parte pelos plexos coróides, em um volume diário em torno de 450mL, e parte dele é reabsorvida pelo sistema venoso. Normalmente, seu volume total num adulto é em média de 140mL. A quantidade puncionada não deve exceder a 1/7 do total. Ou seja, em torno de 20mL no adulto; 12mL na infância; e 6mL em recém-nascidos. O material deve ser analisado imediatamente após a coleta, sendo importante o cuidado na conservação e no transporte para manter a integridade da amostra.

Exame físico

ASPECTO

O liquor normal tem aspecto límpido, tipo água de rocha, apresentando-se turvo pelo aumento do número de células (leucócitos e hemácias), pela presença de bactérias, fungos ou de meio de contraste. O aspecto hemorrágico indicará uma hemorragia subaracnóidea ou um acidente de punção. O diagnóstico diferencial entre essas duas situações é feito:

COR

Normalmente incolor. O liquor xantocrômico indica a presença de bilirrubina ou hemólise. Em recém-nascidos, a xantocromia é um achado normal, conseqüência da imaturidade anatômica e funcional da barreira hematoencefálica, e proporcional aos níveis de bilirrubina. A cor acastanhada se dá pela presença de metemoglobina e a avermelhada (eritrocrômico) pela presença de oxiemoglobina das hemácias recém-lisadas.

Bioquímica

PROTEÍNAS

Utiliza-se a relação entre os valores da albumina no soro e no liquor como um índice de avaliação da permeabilidade da barreira hematoencefálica.

Este índice normalmente encontra-se abaixo de 9. Observamse valores elevados em acidentes de punção, em situações que levem a um aumento da permeabilidade da barreira hematoencefálica, ou em sua imaturidade, como acontece no período neonatal.

A eletroforese de proteínas é utilizada no diagnóstico de doenças inflamatórias e desmielinizantes do SNC. Vide capítulo de Bioquímica.

IMUNOGLOBULINAS

Utiliza-se a relação entre os valores da imunoglobulina G sérica e no liquor para avaliar sua produção intratecal. Esta relação é expressa como um índice, que normalmente varia entre três e oito.

Dividido pelo índice de albumina, o resultado dá origem a um novo índice, que, quando elevado, reflete o aumento da síntese de IgG. Os valores são considerados normais até 0,77.

A síntese intratecal de IgG pode ser calculada pela fórmula de Tourtellote (1985).

Os valores normais para este índice são de até 3mg/dia. Observam-se níveis aumentados na esclerose múltipla e em outras doenças neurológicas inflamatórias, infecções pelo HIV e meningites por criptococos, entre outras.

GLICOSE

Corresponde a 60% a 70% da concentração plasmática. Valores diminuídos podem ser encontrados nas meningites agudas e crônicas de diferentes etiologias, hipoglicemia sistêmica, hemorragia subaracnóide, sarcoidose e neoplasias que comprometam as meninges.

OUTRAS DOSAGENS

Desidrogenase láctica (LDH)

É considerada elevada quando a relação liquor/soro for > 0,1 (Donald 1986). São causas de elevação: necrose, isquemia, meningite, leucemia, linfoma e carcinoma metastático. Utilizada também como diagnóstico diferencial entre acidente de punção e hemorragia cerebral, a LDH se eleva proporcionalmente ao grau de hemorragia.

Creatinofosfoquinase (CK)

A elevação da fração BB da CK ocorre em hemorragia subaracnóide, trombose cerebral, lesões desmielinizantes, síndrome de Guillain-Barré, tumores primários e metastáticos, meningoencefalite viral, meningite bacteriana, hidrocefalia e traumatismo craniano.

Ácido láctico

A determinação do ácido láctico pode ser útil na diferenciação de meningites por bactérias, fungos ou micobactérias das meningites virais. Nas virais, o nível de ácido láctico raramente excede de 25mg/dL a 30mg/dL. Em contraste, nas outras formas de meningite, costuma estar presente em níveis superiores a 35mg/dL. O aumento do lactato está intimamente associado a baixos níveis de glicose (meningite bacteriana). Vide capítulo de Bioquímica.

Citologia Global e Específica

A presença de hipercitose neutrofílica sugere um processo inflamatório agudo. Apesar de presente de forma fugaz nos processos virais e assépticos, o aumento de células, com predomínio de polimorfonucleares, é mais característico de processos bacterianos agudos.

A hipercitose linfocitária sugere um processo crônico. O predomínio de células mononucleares é observado nas patologias neurológicas crônicas, meningites virais, processos tuberculosos e luéticos, cisticercose e criptococose. O aumento do número de eosinófilos ocorre nas doenças parasitárias, especialmente na cisticercose, toxocaríase, triquinose e esquistossomose.

Nas primeiras horas após uma hemorragia subaracnóide ocorre uma reação celular com predomínio de neutrófilos, algumas células plasmocitárias e raramente eosinófilos. De 24 a 48 horas mais tarde, surgem os macrófagos.

Durante a análise microscópica, pode observar-se também a presença de células oriundas de tumores primários ou metastáticos do sistema nervoso central.